sábado, junho 10, 2023

Cada vez mais o cinema do passado corre o risco de desaparecer. Por quê?

Numa entrevista recente, o diretor Steven Spielberg disse que se arrependeu de alterar cenas de E.T.: O Extraterrestre (1982) para o relançamento do filme em 2002. O incomodavam as cenas nas quais agentes do FBI apontam armas de fogo para crianças. Ele decidiu trocar digitalmente as armas de fogo por rádios, para remover o peso que ele via nas cenas em questão. 

Anos depois ele diz se arrepender, argumentando que o filme era um produto de seu tempo, e deveria ser tratado como tal. O diretor ainda expandiu o argumento de que nenhum filme ou livro deveria ser revisado, de maneira voluntária ou forçada, para supostamente agradar o público atual, posicionando-se contra a censura desse tipo.

Mas do que exatamente ele está falando? Muitas vezes, o público desavisado nem percebe essas alterações. Estas mostram mudanças profundas no consumo de filmes e livros, tanto nos âmbitos tecnológico e mercadológico, quanto o cultural.

Spielberg menciona que "...ninguém deve tirar o chocolate da Fantástica Fábrica de Chocolate…". Ele se refere a como edições recentes de livros de Roald Dahl (A Fantástica Fábrica de Chocolates, As Bruxas, Matilda), têm sido revisadas, e em boa medida re-escritas, para "não ofender" e garantir a "relevância". Outro importante autor de literatura infantil, Dr. Seuss, tem sido revisto com a mesma intenção.

Esta é uma infeliz tendência dos "guardiões" da cultura; os editores, produtores e promotores culturais que intermediam a produção dos artistas de fato (vivos ou mortos) e nós, o público. Cada vez mais o olhar do presente, carregado de todas as tendência politicamente corretas e interesses políticos do dia, combinados ao desrespeito e arrogância que os "iluminados" de hoje têm em relação às obras que nos foram legadas, distorcem nosso olhar sobre a produção cultural de ontem e de hoje. Com crescente frequência, suas intervenções se tornam mais profundas e silenciosas. Auxiliados pela tecnologia de hoje, muitas das mudanças podem ser realizadas sem que o grande público possa se opor ou se quer perceber. Mas como?


Esta matéria é muito interessante e você pode ler na íntegra neste endereço:

https://www.brasilparalelo.com.br/noticias/julgando-o-cinema-do-passado?src=995b0fa81bf5463e801af6aaa01efd1d&gclid=CjwKCAjwvpCkBhB4EiwAujULMnRYeHSgsKhNbOJcz6pa9ZtaBPewoqa8IpoVrpI4rOT709SKeZirZhoCPz4QAvD_BwE



domingo, janeiro 23, 2022

REDES

Digladiam-se vermelhos e amarelos. Digladiam-se, mas só nas redes sociais. Dificilmente saem dela. É mais fácil, mais seguro e qualquer coisa que der errado é só deletar e fica 'o que disse por não disse'. Saudades de quando essa "luta" acontecia no boteco da esquina ou no ponto do ônibus ou na festa de casamento, quando as festas eram em casa e tinha-se mais liberdade.

As redes sociais são responsáveis pelo aumento de valentes virtuais, aqueles que falam o que querem na frente da sua cara, quer dizer na frente da foto que aparece na tela do computador ou do celular. Alguém disse "não se faz mais valentes como antigamente". 

As redes sociais são grandes industrias de pasteurização virtual. Todos tem a liberdade de falar o que quer nas redes, mas não leve para a rua, a menos que você tenha uma boa turma que compartilha com você seus pensamentos e estão dispostos a te acompanhar, a falar na cara do seu opositor o que foi dito no virtual, sem medo que trocar socos reais.

Redes sociais foram criadas para aumentar os relacionamentos, os contatos, as brigas e os socos, sem dor e sem sangue!



quinta-feira, janeiro 20, 2022

Diana Krall

 Ganhei este vídeo de uma amiga há mais de 15 anos. É o meu preferido até hoje



Se correr o bicho pega...

Tempos difíceis. Mais uma vez vemos nossos planos para o novo ano serem impedidos pelo vírus. Em 2020 esperávamos que em dois, três meses estaríamos livres. Quando alguém disse que só em Junho começaríamos ter alguma melhora, todo mundo duvidou. O ano acabou, veio 2021 e com ele a esperança nas vacinas e, finalmente o fim da era Covid... E o ano acabou e veio 2022 e antes que dessemos graças por, finalmente, podermos realizar nossos sonhos, nossos planos, nossos encontros (quantos encontros você se comprometeu a participar no final da pandemia?), ele voltou com outra roupa, mais pegajosa e nós estamos aqui, tentando não tê-los grudados a nós, tentando se safar, tentando não pegar.

Mais de 200 mil contaminações em 24hs. Está difícil! 

"Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come"



domingo, janeiro 16, 2022

DOMINGOS

Existem três domingos na minha vida. Os domingos da infância, quando todas as nossas responsabilidades eram comer, brincar e dormir. A diferença entre os outros dias era que domingo eu ia na missa com minha mãe. Família muito católica, não perdia a missa das sete (ou oito, não lembro). A missa, 'naquele tempo' era toda em latim. Ninguém entendia nada, além do padre e, talvez, os coroinhas. Não era bonita igual hoje, com cores, pessoas que se postam ao lado do padre e leem trechos da Bíblia ou outros textos. Podem ser mulheres, coisa impossível de acontecer nas minhas missas de criança. 

Eu gostava da missa do Domingo de Ramos. Antes de sair, minha mãe ia na horta e pegava alguns ramos de algumas plantas e levava para a missa. Num certo momento todos erguiam os ramos e o padre os abençoava (demorou muito tempo para eu entender porque se chamava Missa de Ramos).

Quando chegava em casa, dona Conceição tirava o quadro da Santa Ceia, que ficava na parede do quarto (nós não tínhamos sala) e de trás dele pegava um ramo já todo seco e substituía pelo novo. O seco, ela ia no quintal e queimava. Esse era a parte que eu mais gostava. Crianças são todas piromaníacas em potencial!

O resto do domingo era almoço com a família: macarronada ou frango com polenta ou os dois, vinho, guaraná ou soda para a criançada.

Os domingos da adolescência não eram tão bons, mas tinha Jovem Guarda... 



sábado, janeiro 15, 2022

Cidade Maravilhosa

 Chegar ao Rio de Janeiro pelo alto é maravilhoso.




CINE BIJOU

Os mais novos não conheceram. Os da minha geração sentem saudades. O Cine Bijou vai reabrir!

No dia do aniversário de São Paulo, as 20hs com o filme "Zuzu Angel" estrelado por Patrícia Pilar, o cinema será oficialmente inaugurado.

O Bijou foi inaugurado em 1962 com uma programação diferenciada das outras salas. O primeiro cinema de arte do País funcionou até 1997 na Praça Roosevelt, no centro da cidade de São Paulo, perto de outro espaço muito famoso na época, o Teatro de Arena.

Sala Patrícia Pillar é o nome da sala. Claro está que não concordo. Não vejo a importância de Patrícia no cinema. Por que não Sala Dina Sfat?

Após a inauguração a sala apresentará uma programação gratuita que você pode conferir aqui



Placa na fachada lembra a história do Cine Bijou

sexta-feira, janeiro 14, 2022

Escrever

 É muito difícil voltar a escrever num blog depois que a "era dos blogs" passou. Tem gente que nem sabe o que é um blog e se pergunta, por que um blog? Não sei, de repente veio a vontade de escrever fora do Facebook. Escrever onde qualquer um pode entrar e ler, sem ser 'da rede'.  Como toda experiência tem que ser mostrada para ver se funciona, estou aqui, querendo escrever. Não vou falar de política, mas de música, de cinema, de comida, de amor... 

Até amanhã!

O amor é...

 O amor é difícil para os indecisos.

É assustador para os medrosos.

Avassalador para os apaixonados!

Mas, os vencedores no amor são os fortes.

Os que sabem o que querem e querem o que têm!

Sonhar um sonho a dois

e nunca desistir da busca de ser feliz é para poucos!


Ercília Ferraz de Arruda Pollice

Fezoca

 Notei que a Fezoca, amiga blogueira de 2002 e/ou 2003 e além continua com seu blog no ar, postando. Eu até gostaria de fazer isso. Meu blog, o VoltaMeg continua ativo, o que me surpreendi quando o abri estes dias. Vou tentar fazer aqui o que faço no Facebook, mas que já está ficando chato. Quem sabe volto com blog e deixo o Face um pouquinho só para contatos. Será que virão aqui me visitar?

quinta-feira, janeiro 13, 2022

Hoje não

 Hoje, 13 de Janeiro de 2022 na cidade de Niterói, Rio de Janeiro existe uma pandemia. Um dia eu vou escrever que essa pandemia não existe mais. É coisa do passado recente, mas que não deixou saudades. Um dia eu quero escrever que podemos sair de casa, abraçar os amigos, entrar num bar sem ter que mostrar atestados. Poder sair e resolver ir ao cinema ou ao shopping fazer uma comprinha. Hoje eu só posso escrever o que gostaria de escrever. Amanhã, quem sabe!

quinta-feira, agosto 06, 2015

Enquanto isso no Brasil

"Quero que você me aqueça nesse inverno/E que tudo o mais vá pro inferno!"


Cai uma flor no palco. O cantor se curva, apanha-a, olha para a platéia e leva a flor aos lábios. É o delírio. As meninas aplaudem, gritam, os rapazes assobiam. Uma jovem de 14 anos chora, enrolando nervosamente nos dedos um lenço branco amarrotado. O cantor diz duas frases cheias de gíria, curva-se até a altura dos joelhos, estica o braço e anuncia: "O meu amigo, Erasmo Carlos". Estava no ar mais um programa "Jovem Guarda", do líder da juventude iê-iê-iê nacional Roberto Carlos. Falando da angústia e das alegrias do jovem de classe média na sociedade de massas, o novo ídolo colocou em xeque os velhos valores da MPB, que se voltava para o regional, o sofrimento e a pobreza das gentes do interior. Segundo Augusto de Campos, "como excelentes 'tradutores' que são de um estilo internacional de música popular, Roberto e Eramos Carlos souberam deglutí-lo e contribuir com algo mais: parecem ter logrado conciliar o mass appeal com o uso funcional e moderno da voz. Chegaram, assim, nesse momento, a ser os veiculadores da 'informação nova' em matéria de música popular, apanhando a BN (Bossa Nova) desprevenida, numa fase de aparente ecletismo". (...)

(Fonte: Nosso Século - Abril Cultural - 1980)




quarta-feira, agosto 05, 2015

De Liverpool para o mundo (1957-1962) - III

Nascem os Beatles

O Quarry Men aos poucos deixou os instrumentos de skiffle e se tornou uma banda de rock de verdade. No ano de 1959, o grupo passou a se apresentar no Casbah, clube de Liverpool pertencente a Mona Best. O nome Quarry Men também foi deixado de lado e por um breve tempo os rapazes se auto-intitularam Johnny & The Moondogs. Outra novidade foi a entrada da banda de Stuart Sutcliff (também conhecido como Stu e nascido em 23 de junho de 40), amigo de John e um brilhante pintor. Apesar de não ser músico, Stu começou a tocar contrabaixo, de uma forma bem rudimentar.
O horizonte se abriu em março de 1960, quando o grupo foi convidado a participar de uma breve turnê pela Escócia, acompanhando o cantor Johnny Gentle. Para a ocasião, a banda adotou o nome de Silver Beatles, uma sugestão de John e Stu. Mas logo o "Silver" foi abandonado. O baterista na época, Tommy Moore, não ficou muito tempo e, em agosto, os rapazes convocaram para as baquetas Pete Best, filho da dona do Casbah. Best chegou a tempo de se juntar ao grupo numa viagem a Hamburgo (Alemanha), organizada pelo empresario Allan Williams.
Foi na Alemanha que o grupo começou a ganhar experiência. Os Beatles eram obrigados a tocar 12 horas seguidas, se mantendo em pé a base de sanduíches e pílulas. Os shows, selvagens e barulhentos, traziam no repertório clássicos do rock. Nessa primeira viagem, os rapazes tocaram nos clubes Indra e Kaiserkeller, fazendo um total de 106 aparições e - o mais importante - de cara fizeram amizade com Ringo Starr (nascido Richard Starkey, em 7 de julho de 1940), baterista de Rory Storm & The Hurricanes, grupo de Liverpool que também se apresentava por lá.


(Revista SHOPPING MUSIC Especial - The Beatles - Junho/1999)

segunda-feira, agosto 03, 2015

De Liverpool para o mundo (1957-1962) - II

Elvis & Skiffle

Um dos rapazes que idolatrava Elvis e Donegan era John Winston Lennon (nascido em 9 de Outubro de 1940). Abandonado pelos pais e criado por uma tia, John sempre foi de arrumar encrencas, fazia pequenos roubos e vivia se metendo em brigas. Poderia ter se tornado um delinquente juvenil se não tivesse se interessado pela música.
Ainda na escola, formou o grupo Quarry Men e tocava em festinhas e quermesses. No dia 6 de Julho de 1957, o grupo fazia um show em Wopltin Parish quando um de seus intergrantes Ivan Vaughan apresentou a Lennon um rapaz chamado James Paul McCartney (nascido em 18 de junho de 42). Impressionado com as habilidades musicais de Paul, ele o chamou imediatamente para a banda.
No dia 15 de julho dee 1958, John sofreu um duro golpe com a morte de sua mãe, Julia, com quem tinha voltado a se relacionar. Magoado, se empenhou em reestruturar o grupo. A nova aquisição para o Quarry Men foi George Harrison (nascido em 25 de fevereiro de 43), que tinha estudado no Liverpool Institute High. E foi ainda em 58 que Lennon, McCartney, Harrison, Colin Hampton e John "Dulf" Lowe fizeram sua primeira gravação, um acetado contendo, de um lado, "That Will Be the Day" (de Buddy Holly) e do outro lado "In Spite of All Danger" (música de McCartney e Harrison).

(Revista SHOPPING MUSIC Especial - The Beatles - Junho/1999)







domingo, agosto 02, 2015

De Liverpool para o mundo (1957-1962) - I

Liverpool trouxe várias glórias para o Império Britânico. Foi pelos seus portos que boa parte das riquezas e inovações tecnológicas chegaram à Inglaterra. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade foi muito castigada e teve de se ajustar a um padrão provinciano e desprovido de glamour ou poder.
Apesar das dificuldades, o povo de lá nunca perdeu o bom-humor. Habitada na maior parte por imigrantes irlandeses, Liverpool acabou se transformando no berço de muitos comediantes e músicos. Por ser uma cidade portuária, sempre foi aberta a novidades musicais, recebendo em primeira mão discos vindos da América.
Na metade dos anos 50, o mundo foi tomado de assalto por Elvis Presly e o rock and roll. A inquieta juventude de Liverpool adotou imediatamente o ritmo. Inicialmente, os jovens tocavam skiffle, um estilo musical vindo de Chicago e que usava instrumentos improvisados e baratos como tábuas de lavar roupa e baixo de pau. Lonnie Donegan era o maior nome do movimento e seu hit "Rock Island Line" inspirou muito jovens a comprar guitarras.

(Revista SHOPPING MUSIC Especial - The Beatles - Junho/1999)


sábado, agosto 01, 2015

Wave

Quarto disco solo de Antonio Carlos Jobim, Wave chegou ao mercado norte-americano no segundo semestre de 1967, pelo selo CTI (então distribuído pela A&M Records), de Creed Taylor, que também assinou a produção. Como os álbuns solos anteriores, foi inteiramente gravado nos Estados Unidos, em apenas quatro sessões no Van Gelder Studios (dia 22, 23 e 24 de maio e 15 de junho), em Nova Jersey, com arranjos e regência do maestro alemão Claus Ogerman, então já um velho conhecido de Tom.

(Fonte Coleção Folha tributo a Tom Jobim)


quinta-feira, julho 30, 2015

COVERDALE & PAGE


Muitos falam que é Led Zeppelin mas...Isso não é Led Zeppelin! Foi um álbum de David Coverdale, do Whitesnack, e Jimmy Page.
Sem o Robert Plant e Page juntos, jamais poderia ser Led Zeppelin.  Entretanto o álbum é bom. A voz do Coverdale é parecida com a do Plant.

Robbert Plant também fez um voo solo numa banda chamada The Honeydrippers nos anos 80.
O Led acabou em 1980. Eu lembro pois era a minha banda favorita (Floyd era 'hors concours'). Plant e Page sempre andaram juntos em outros projetos, gravaram e regravaram muitas coisas do Led.
(by Sandra Maura)

Menina que passa

Esta letra foi feita por Vinicius de Moraes

Menina que passa

Vinha cansado de tudo
De tantos caminhos
Tão sem poesia
Tão sem passarinhos
Com medo da vida
Com medo de amar

Quando na tarde vazia
Tão linda no espaço
Eu vi a menina
Que vinha num passo
Cheio de balanço
Caminho do mar

Mas Tom e Vinicius não gostaram e mais tarde transformaram nesta:


(HISTÓRIA DE CANÇÕES - Tom Jobim - Wagner Homem & Luiz Roberto Oliveira - LeYa)

quarta-feira, julho 29, 2015

Menescal e Bôscoli



Menescal e Bôscoli nem desconfiavam de que haviam sido feitos um para o outro quando se conheceram, em 1956, numa das rodas de violão de outro veterano, o compositor Breno Ferreira, na Gávea. Breno era o autor de "Andorinha preta", uma toada do remotíssimo ano de 1925 e que também seria gravada por Nat "King" Cole.
(...)
Aquela noite, na casa de Breno, depois de ouvir andorinhas pretas suficientes para vários verões, Menescal passou por uma porta e saiu numa varanda onde os integrantes da roda eram bem mais jovens e o repertório também. Um dos rapazes estava cantando coisas como "Duas Contas", "Nick Bar", "Uma Loura" - enfim, os dick-farneys. Menescal ficou sabendo que o rapaz era um reporter da Última Hora, chamado Bôscoli. Devia ser ótimo jornalista, para cantar mal daquele jeito. Os dois conversaram e descobriram que, além de uma paixão em comum pelo mar, também pensavam igual sobre o estado das coisas da música popular. Achavam pavoroso.
Ambos cultivavam a maior antipatia por aquele tipo de letra penumbrosa que era o forte da época, como a de um samba-canção chamado "Bar da noite", que dizia "Garçom, apague esta luz/que eu quero ficar sozinho". Em outra música, um bolero chamado "Suicídio", o cantor simplesmente dava um tiro na gravação. Não tinham paciência nem para Antonio Maria, admiradíssimo pelos quarentões por ter escrito "Ninguém me ama/ninguém me quer/Ninguém me chama/De meu amor" e "Se eu morresse amanhã de manhã/Minha falta ninguém sentiria". Na flor do tesão, fazendo esporte e vendendo saúde, os dois moleques de praia achavam impossível identificar-se com o clima pesado daqueles sambas-canção, cheios de mulheres perversas, que traíam os homens e os levavam à morte.

Fonte: Chega de Saudade - Ruy Castro - Companhia das Letras

Nara leão - O Barquinho de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli


terça-feira, julho 28, 2015

1º de Abril

Enquanto, para alguns, o mundo pegava fogo em 1964, para outros o ambiente continuava de paz e passarinhos. A cantora Wanda Sá, dezenove anos, Roberto Menescal e seus músicos e o engenheiro de som Umberto Contardi chegaram ao estúdio aquele dia na hora certa. Iam gravar "Inútil Paisagem", de Tom e Aloysio de Oliveira, a última faixa do disco de estréia de Wanda, Vagamente, para a RGE. O estúdio estava fechado e vazio, embora fosse uma quarta-feira comum. Mas Contardi tinha a chave e entraram. Só faltavam agora os músicos responsáveis pelas cordas. Horas se passaram e ninguém chegava. Estranharam aquilo - violinistas são homens sérios, quase sempre de meia-idade, cumpridores de horários. Wanda e Menescal desistiram de esperar e gravaram com o que tinham. Na saída, de volta para a Zona Sul, notaram movimentos estranhos no Campo de Santana e uma agitação na Central do Brasil. Quando passaram pelo Flamengo, viram a UNE sendo incendiada. Os músicos haviam faltado porque a CGT decretara greve geral e os transportes desapareceram. Aquele dia era 1º de Abril de 1964 e eles não tinham a menor idéia do que estava acontecendo.
(Chega de Saudade - Ruy Castro - Companhia das Letras)